A Lava Jato como purgação e maldição

DIVULGAÇÃO/PF

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Para refundar a democracia é preciso bem mais do que combater a corrupção: é preciso produzir justiça e memória dos crimes contra a vida humana cometidos pelo Estado

Se a crise da democracia e da política é um fenômeno global, é preciso compreender o que há de particular na experiência hoje vivida pelo Brasil. Minha hipótese é de que as raízes da nossa atual crise estão no próprio processo de retomada da democracia após 21 anos de ditadura civil-militar. As raízes da nossa crise estão no apagamento dos crimes da ditadura e na impunidade dos torturadores. O Brasil retomou a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos do período de exceção. Seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um país que para retomar a democracia precisa esconder os esqueletos no armário é um país com uma democracia deformada. E uma democracia deformada está aberta a mais deformações. O que se infiltra no imaginário da população é que a vida humana vale pouco qualquer que seja o regime. E este não é um dado qualquer na atual crise.

É neste sentido o uso das palavras “purgação” e “maldição” do título deste artigo para se referir aos significados da Lava Jato. Se a operação é importante e é imperativo que ela continue, porque expõe a relação estabelecida entre governos, partidos e parte do empresariado nacional, a Lava Jato também revela, pelo seu avesso, o pacto do diabo que resultou na alma deformada da nossa democracia. A grande purgação nacional não é pela vida humana, mas pelo dinheiro. Não é pela carne, mas pela matéria inanimada. Quando finalmente combatemos a impunidade, o que nos mobiliza são os bens materiais, enquanto a vida segue sendo ferida de morte.

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Esta é a terceira de uma série de três colunas que se complementam e dialogam entre si. Sobre este tema, leia também:

Cotidiano de Exceção
Como lutar pela democracia aprendendo sobre a tirania

Por que Diretas Já
É preciso interromper a crescente fragilização da democracia para recuperar a capacidade de imaginar um país

 

 

 

Cotidiano de Exceção

Como resistir?

Neste momento de tantas armadilhas, o que se infiltra nas horas é esta sensação de anormalidade que não passa. Convertida num presente contínuo, é como se o dia seguinte nunca chegasse. O risco é que, para recuperar a “normalidade”, qualquer normalidade, se aceite o inaceitável. Quanto maior for o anseio por “normalidade”, mesmo que ilusória, mais as pessoas tornam-se dispostas a conceder e a perder direitos. E é aí que mora o perigo.

Na coluna desta semana, faço uma conversa com um livro que reflete sobre a tirania. Precisamos reagir por reflexão – e não por reflexo. A melhor resistência ainda é o pensamento.

Leia o texto completo AQUI.

Cartaz da edição brasileira do livro 'Sobre a tirania' feito por Alceu Chierosin Nunes DIVULGAÇÃO

Cartaz da edição brasileira do livro ‘Sobre a tirania’ feito por Alceu Chierosin Nunes DIVULGAÇÃO

Alien, o passageiro perdido de uma nave sem futuro

Pra quem não sabe, eu sou uma alienmaníaca.

Então… Vou pensando sobre a criatura que tanto conversa com a gente. Sobre a impossibilidade de imaginar um futuro, mesmo um distópico, sobre o feminino feroz dos primeiros filmes, sobre pais e filhos…

Cena de Alien 3 (1992) Reprodução do El País

Cena de Alien 3 (1992) Reprodução do El País

Hoje, nos despedimos da criatura de Ridley Scott na saída do cinema e vamos comer uma pizza. Antes, ele nos fecundava na poltrona e voltava pra casa com a gente. O que aconteceu?

 

“A nave já não é a caravela que nos leva ao novo mundo – ou ao paraíso perdido. A nave é o presente onde estamos confinados. Nos brancos corredores claustrofóbicos viajamos com a destruição que carregamos.”

 

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Por que os ruralistas querem a extinção da Funai

O ruralista Nilson Leitão (PSDB) defende a extinção da Funai em seu relatório para a CPI da Funai-Incra, dominada por ruralistas, conforme matéria da Folha (leia AQUI). É importante lembrar que ele é também o autor do projeto que altera a legislação para o trabalhador rural (leia AQUI), na qual, segundo matéria do Valor Econômico, poderá se tornar possível pagar o trabalhador com casa e comida, em vez de salário. As propostas são relacionadas – e há bem mais. Elas mostram a visão dos ruralistas para o campo e para as terras indígenas e áreas de proteção ambiental. E os ruralistas hoje dominam o Congresso e o Planalto.

Entre as manipulações do discurso, aparece a velha falsidade de que, por receberem financiamento de fundações internacionais ligadas aos direitos humanos e ambientais, as ONGs que defendem o meio ambiente e os direitos dos povos da floresta estariam a serviço do “estrangeiro”. Quem ainda acredita nisso deveria se perguntar por que estes mesmos atores ou seus pares acham desejável que grandes mineradoras de capital transnacional explorem o subsolo da Amazônia, por exemplo. Aí é “desenvolvimento”.
Dinheiro de fundação internacional para proteger a floresta e os indígenas, para eles, é “suspeito”. Grandes mineradoras estrangeiras e corporações internacionais explorando as riquezas naturais do Brasil é “progresso”.

Em tempo: uma das organizações que o deputado ruralista cita de forma pejorativa é o Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Foi justamente o Cimi que denunciou o ataque aos índios Gamela ocorrido no último domingo. Conveniente para muitos que o Cimi não existisse, não?

A outra manipulação é o “marco temporal”. Eles querem impingir à população que só os indígenas que estavam sobre as suas terras ancestrais em 1988, ano da promulgação da Constituição, têm direito a reivindicar demarcação. Isso é de uma enorme perversidade, na medida em que grande parte dos povos tinha sido expulsa de suas terras por grileiros ou por projetos de colonização promovidos pelo Estado.
É mais ou menos assim: você foi expulso da sua casa, parte da sua família foi assassinada, e você está fugindo com o que restou da sua família. E, agora, quando a Constituição reconhece o seu direito de voltar para sua casa e ter a garantia de que não será expulso dela novamente, os mesmos algozes dizem: “Ah, mas você não estava lá em 1988, então não tem mais direito”. É isso o “marco temporal”.

O fato é que as terras indígenas são as mais preservadas exatamente porque são protegidas. Se há floresta em pé ainda, no Brasil, em grande parte isso se deve aos povos da floresta. Mas os ruralistas querem avançar sobre estas terras públicas para obter ganhos privados. E transformar índios e ribeirinhos em pobres urbanos nas periferias das cidades.

Por que precisamos prestar muita atenção nisso e nos posicionarmos?

Eticamente, a garantia da vida dos povos da floresta deveria ser suficiente. Mas, para quem acha que isso não é suficiente, em tempos de mudança climática, se o meio ambiente não for protegido, a vida que já piora vai piorar muito, mas muito mesmo. E vai piorar muito para todos.

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