Refugiados de Belo Monte: conteúdo complementar do curso

Para quem assistiu à primeira aula do curso “Psicanálise em Situação de Vulnerabilidade Social: o Caso Belo Monte”, dada por Eliane Brum, este é o conteúdo complementar:

07/07/2015
Belo Monte, empreiteiras e espelhinhos
Como a mistura explosiva entre o público e o privado, entre o Estado brasileiro e as grandes construtoras, ergueu um monumento à violência, à beira do Xingu, na Amazônia

22/09/2015
Vítimas de uma guerra amazônica
Expulsos por Belo Monte, Raimunda e João tornam-se refugiados em seu próprio país

09/05/2016
Dilma compôs seu réquiem em Belo Monte
O julgamento mais rigoroso da presidente e do PT, no tempo da História, será feito por brasileiros como João da Silva

João e Raimunda (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

João e Raimunda (Fotos: Lilo Clareto)

01/12/2014
Belo Monte: a anatomia de um etnocídio
A procuradora da República Thais Santi conta como a terceira maior hidrelétrica do mundo vai se tornando fato consumado numa operação de suspensão da ordem jurídica, misturando o público e o privado e causando uma catástrofe indígena e ambiental de proporções amazônicas

 A procuradora Thais Santi, em sua sala no Ministério Público Federal de Altamira, no Pará - Fotos: Lilo Clareto/Divulgação

Thais Santi

14/09/2015
O dia em que a casa foi expulsa de casa
A maior liderança popular do Xingu foi arrancada do seu lugar pela hidrelétrica de Belo Monte, a obra mais brutal –e ainda impune– da redemocratização do Brasil

Antonia Melo

Antonia Melo

16/02/2015
O pescador sem rio e sem letras
À beira de Belo Monte, uma história pequena numa obra gigante. Que tamanho tem uma vida humana?

18/07/2016
Casa é onde não tem fome
A história da família de ribeirinhos que, depois de expulsa por Belo Monte, nunca consegue chegar

Otávio das Chagas (Foto: Lilo Clareto/Acervo Pessoal)

Otávio das Chagas

04/06/2012
Dom Erwin Kräutler: “Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia”
O lendário bispo do Xingu, ameaçado de morte e sob escolta policial há seis anos, afirma que o PT traiu os povos da Amazônia e a causa ambiental. Afirma também que Belo Monte causará a destruição do Xingu e o genocídio das etnias indígenas que habitam a região há séculos. Há 47 anos no epicentro da guerra cada vez menos silenciosa e invisível travada na Amazônia, Dom Erwin Kräutler encarna um capítulo da história do Brasil

Dom Erwin (Foto: Lilo Clareto)

Dom Erwin

31/10/2011
Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney
Um dos mais respeitados especialistas na área energética do país, o professor da USP Célio Bermann, fala sobre a “caixa preta” do setor, controlado por José Sarney, e o jogo pesado e lucrativo que domina a maior obra do PAC. Conta também sua experiência como assessor de Dilma Rousseff no Ministério de Minas e Energia

05/09/2011
Um procurador contra Belo Monte
Conheça o homem que se tornou o flagelo do governo ao lutar contra a maior e mais polêmica obra do PAC

 

Contamos com o seu apoio. Não deixe para amanhã!
REFUGIADOS DE BELO MONTE
https://www.catarse.me/pt/refugiadosdebelomonte

 

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Curso “Psicanálise em Situação de Vulnerabilidade Social: o Caso Belo Monte”

INFORMAÇÕES:   clinicadecuidado@gmail.com

PROGRAMA:

22/09: “Belo Monte: a anatomia da obra e a produção de refugiados de seu própriopaís”
Eliane Brum

29/09: “Altamira é o centro do mundo”
Marcelo Salazar (Instituto Socioambiental)

06/10: “Sofrimento e cuidado em situação de extrema vulnerabilidade: experiências sem fronteiras”
Debora Noal e Ana Cecilia Weinturb (Médicos Sem Fronteiras)

13/10: “Clínica de Cuidado: um modelo de atenção em construção”
Christian Dunker e Ilana Katz (IP-USP)

20/10: “Psicanálise em situações de exclusão e vulnerabilidade social”
Miriam Debieux (IP-USP)

27/10: “Viver e Sobreviver no Xingu”
Antonia Melo (Movimento Xingu Vivo para Sempre)

03/11: “Psicanálise e Saúde Pública + Experiência em Altamira”
Maria Livia Tourinho (IP-USP)
André Nader e Cássia Gimenes Pereira (Clínica de Cuidado)

Refugiados de Belo Monte: curso começa na próxima quinta-feira (22/9) na USP

belo monteAmigos,

Na próxima quinta-feira (22/9) começa o curso “Psicanálise em Situação de Vulnerabilidade Social: o Caso Belo Monte”.

O curso faz parte do projeto de crowdfunding, sobre o qual já escrevi a vocês. Para quem atuar na área da saúde mental e quiser participar da intervenção em janeiro, junto aos atingidos por Belo Monte, o curso é obrigatório. Faz parte da seleção.

Mas o curso é aberto a todos, de qualquer área de atuação, que se interessam por Belo Monte. É aberto e é gratuito. Para inscrição e para qualquer outra informação, o email é este aqui: clinicadecuidado@gmail.com

Eu dou a primeira aula, na próxima quinta-feira: “Belo Monte: a anatomia da obra e a produção de refugiados de seu próprio país”. Nesta aula, faço a contextualização da hidrelétrica e de seus desdobramentos. E conto sobre alguns atingidos que acompanho como repórter, no meu trabalho na região. A ideia é dar o contexto necessário para situar os conteúdos que virão.

Nas próximas aulas, haverá psicanalistas que atuam no campo da vulnerabilidade social e da saúde pública, psicólogas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) com experiência em catástrofes humanitárias e pessoas que trabalham e vivem na região e que acompanharam (e acompanham) o processo de Belo Monte em profundidade: Antonia Melo, a maior liderança do Xingu, também atingida pela hidrelétrica, e Marcelo Salazar, do Instituto Socioambiental.

Aqui, o programa do curso: https://goo.gl/af5qTB

O curso é parte do projeto de financiamento no Catarse, mas já vamos começar as aulas na próxima quinta-feira, mesmo sem ter certeza de atingir a meta, devido à gravidade da situação dos atingidos por Belo Monte.

Infelizmente, o apoio ainda é pequeno. Num país deste tamanho, até agora pouco mais de 400 pessoas colaboraram com o projeto. Precisamos de mais apoio e de mais mobilização para alcançar o valor necessário para fazer a primeira fase da Clínica de Cuidado. Este é um financiamento de “tudo ou nada”. Se não atingirmos a meta, o dinheiro já doado volta aos doadores.

Assim, agradeço muito a todos que já colaboraram. E peço aos que ainda não colaboraram que, se acham que este projeto faz sentido, colaborem. Não deixem para amanhã. Precisamos saber com o quê e com quem podemos contar para planejarmos os próximos passos. Se puderem ajudar na divulgação do curso e do crowdfunding, também seria muito importante.

https://www.catarse.me/refugiadosdebelomonte

Estamos trabalhando há quase um ano neste projeto. Ele não é para nós, é para todos. Se ainda existe floresta em pé, é por causa destas populações que hoje estão lá, adoecidas de dor.

Sei que vivemos todos um momento muito brutal do país. Também por isso a solidariedade é tão importante, é quase um ato de resistência neste mundo de tantos muros.

Obrigada, mais uma vez.

Eliane

 

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Psicanálise em Situação de Vulnerabilidade Social: O Caso Belo Monte
Docentes Responsáveis:
Ilana Katz Zagury
Christian Ingo Lenz Dunker

Horário / Local:
Quintas-feiras das 16:00 às 18:00 (de 22 de setembro a 03 de novembro de 2016)
Auditório Carolina Bori – Bloco G – Instituto de Psicologia – USP

Objetivos:
Construir um modelo de intervenção clínica, baseado na escuta e testemunho de sujeitos em situação de vulnerabilidade social. Investigar o conceito de vulnerabilidade social e sua possível aplicação à psicanálise. Examinar as condições de exequibilidade da escuta do sofrimento em sua relação com práticas de testemunho e narração da experiência. Formular operadores clínicos e éticos necessários para uma prática de cuidado especificamente orientada para um caso modelo: a população ribeirinha atingida pela construção da UHE Belo Monte no Rio Xingu, na região de Altamira, no estado do Pará.

Programa:

22/09: “Belo Monte: a anatomia da obra e a produção de refugiados de seu próprio país”
Eliane Brum

29/09: “Altamira é o centro do mundo”
Marcelo Salazar (Instituto Socioambiental)

06/10: “Sofrimento e cuidado em situação de extrema vulnerabilidade: experiências sem fronteiras”
Debora Noal e Ana Cecilia Weinturb (Médicos Sem Fronteiras)

13/10: “Clínica de Cuidado: um modelo de atenção em construção”
Christian Dunker e Ilana Katz (IP-USP)

20/10: “Psicanálise em situações de exclusão e vulnerabilidade social”
Miriam Debieux (IP-USP)

27/10: “Viver e Sobreviver no Xingu”
Antonia Melo (Movimento Xingu Vivo para Sempre)

03/11: “Psicanálise e Saúde Pública + Experiência em Altamira”
Maria Livia Tourinho (IP-USP)
André Nader e Cássia Gimenes Pereira (Clínica de Cuidado)

INFORMAÇÕES: clinicadecuidado@gmail.com

 

Contamos com o seu apoio. Não deixe para amanhã!
REFUGIADOS DE BELO MONTE
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Black Blocs, os corpos e as coisas

Minha coluna no El País:

Jovens mascarados em protesto contra o Governo Temer (Foto: Sebastião Moreira/EFE - El País)

Jovens mascarados em protesto contra o Governo Temer (Foto: Sebastião Moreira/EFE – El País)

Como os mascarados desmascaram o Brasil do “mais um direito a menos”

 

Os black blocs, que apanham tanto de tantos lados, podem ser uma chave para compreender esse momento tão complexo do Brasil. Não apenas pelo que são, muito pelos discursos sobre o que são. Ao quebrarem patrimônio material como forma de protesto e serem transformados numa espécie de inimigos públicos, aponta-se onde está o valor e também a disputa. Enquanto a destruição dos corpos de manifestantes pela Polícia Militar é naturalizada, a dos bens é criminalizada. Reafirma-se, mais um vez, que os corpos podem ser arruinados, já que o importante é manter o patrimônio, em especial o dos bancos e grandes empresas, intacto. É também os corpos que sofrerão o impacto do projeto do governo que não foi eleito. Estes, que poderão ser ainda mais exauridos pelas mudanças nas regras do trabalho e também nas da aposentadoria. São os corpos os atingidos pelas reformas anunciadas como uma necessidade para não “quebrar o país”. Ao subverter o objeto direto do verbo “quebrar”, quebrando o que não pode ser quebrado, os mascarados desmascaram o projeto que pode ser chamado de “mais um direito a menos”.

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil/Fotos Públicas (28/08/2013)

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil/Fotos Públicas (28/08/2013)

Quem quebra, como quebra e por que quebra é mais complexo do que se tenta fazer parecer. Os habituais quebrados acostumaram-se a ouvir, em diferentes períodos históricos, que é preciso quebrá-los mais para o país não quebrar. Nunca se fala, por exemplo, em políticas para quebrar um pouco a renda dos mais ricos e redistribuí-la de maneira que os quebrados de sempre se tornem um pouco menos quebrados. Não. A única saída é quebrar mais quem já é quebrado. Assim, um projeto que pertence ao campo da política se transforma num dogma propagado por gurus da economia no altar em que os sacrificados são sempre os mesmos. Neste caso específico, a escolha de um projeto não eleito e, portanto, sem legitimidade democrática para interferir tão profundamente na vida cotidiana dos brasileiros – sem legitimidade para impactar tão profundamente os corpos.

 

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas (30/03/2016)

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas (30/03/2016)

Quando os black blocs voltam ao palco de disputa, discordando ou não de sua tática, é preciso olhar para quais são as vidraças que quebram. E desconfiar de por que o rompimento destas vidraças têm causado tanto barulho e mobilizado tanta fumaça.

 

 

Leia o texto completo na minha coluna no El País

 

Clínica de Cuidado: precisamos do seu apoio

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Escuta, tratamento e documentação do sofrimento dos refugiados produzidos por Belo Monte

 

Belo Monte é vista por muitos como fato consumado, mais um trágico capítulo da história do Brasil que ficou para trás. Mas e o sofrimento vivido agora, neste exato momento, pelos atingidos, por aqueles cuja vida virou água? Não importa? Que tipo de gente somos nós se o sofrimento do outro não nos comove nem nos move? Se não for por ética, que seja por gratidão: se ainda existe floresta amazônica em pé, é a estas populações que devemos.

Belo Monte foi construída em nome de todos os brasileiros. A questão é: o que vamos fazer por quem paga a conta da destruição do Xingu com a vida?

https://www.catarse.me/refugiadosdebelomonte

 

Amigos,

Escrevo para pedir a sua ajuda para um projeto ao qual tenho me dedicado há pelo menos um ano. Acompanho Belo Monte desde muito tempo, mas quando as pessoas começaram a ser expulsas de suas casas, ilhas, beiradões etc pelo processo perverso da construção da hidrelétrica, o sofrimento tomou outras palavras e formas.

João e Raimunda (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

João da Silva e Raimunda (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

Ficou muito claro para mim que eu poderia seguir contando as histórias, como sigo e seguirei, mas havia algo que precisava acontecer lá e que não estava acontecendo. Parte das pessoas está em grande sofrimento psíquico. Muitas adoecem. Como João da Silva, que teve dois AVCs, o primeiro deles no escritório da Norte Energia, quando soube que seria expulso e receberia um valor insuficiente para recompor a vida.

O sofrimento aparece de várias maneiras e também em doenças como AVC, diabetes, hipertensão etc. Em geral, como é comum nesta época de vida patologizada, as doenças que surgem são tratadas como desconectadas do processo violento da implantação da hidrelétrica. E, assim, Estado e Empreendedor são desresponsabilizados. Historicamente, a dimensão da saúde mental é esquecida em processos como este. Se questões explícitas são encobertas, esta então…

Comecei a bater em algumas portas e fui escutada por algumas pessoas da área da saúde mental que respeito muito. Entre elas, os profissionais deste grupo com o qual trabalho neste dispositivo. Estamos construindo um projeto de saúde mental junto aos atingidos pela hidrelétrica, coordenado por Christian Dunker, Ilana Katz e por mim, que chamamos de Clínica de Cuidado (escuta, tratamento e documentação do sofrimento dos refugiados produzidos por Belo Monte).

Até agora, nas incursões prévias, pagamos do próprio bolso. Nestas primeiras pequenas expedições, escutamos os movimentos sociais e ambientais que atuam na região, assim como homens e mulheres atingidos, e aprendemos com eles. Também foram contatados e ouvidos os profissionais que atuam na rede de saúde mental do SUS.

Agora, na nova etapa, a empreitada é maior. Precisamos de apoio. Assim, lançamos um projeto de crowdfunding: Refugiados de Belo Monte.

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Foto: Lilo Clareto /Arquivo Pessoal

É nossa primeira tentativa de financiamento (pelo) público. Então, estamos aprendendo. Para mim, também, é uma nova inserção. E vem do sentimento de que estamos num momento tão grave da história do Brasil e do mundo que fazer o que a gente sabe já não é suficiente. É preciso inventar outros jeitos de ser e de estar no mundo — e também outras formas de fazer o que a gente sabe.

Pra muita gente Belo Monte já é “fato consumado”, como se as pessoas que hoje lá sofrem pudessem simplesmente ser deixadas para trás. Se Belo Monte vai virando fato consumado, em parte isso acontece por conta da omissão da população do centro-sul do país.

Assim, me parece também que temos um compromisso ético no movimento de reparação. Ainda que a reparação total seja impossível, como bem sabemos, o movimento de reparar tem efeitos profundos tanto para a comunidade quanto para o indivíduo, além de ser um ato político efetivo.

A meta do financiamento do projeto no Catarse é alta e é no tudo ou nada.

Aqui está o link: https://www.catarse.me/refugiadosdebelomonte

Se fizer sentido para você, seria muito importante seu apoio e a divulgação nas suas redes e nos seus espaços.

Muita gente me pergunta, depois de ler minhas reportagens sobre os refugiados de Belo Monte: “O que eu posso fazer?”. Bem, estamos tentando nos responsabilizar e construir uma resposta. E precisamos do seu apoio.

Muito obrigada.

grande abraço, Eliane

Assista ao vídeo com a proposta do nosso projeto:

https://www.catarse.me/refugiadosdebelomonte

 

 

Para conhecer um pouco mais sobre o sofrimento dos refugiados de Belo Monte, leia também:

João e Raimunda (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

João e Raimunda (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

22/09/2015
Vítimas de uma guerra amazônica
Expulsos por Belo Monte, Raimunda e João tornam-se refugiados em seu próprio país

09/05/2016
Dilma compôs seu réquiem em Belo Monte
O julgamento mais rigoroso da presidente e do PT, no tempo da História, será feito por brasileiros como João da Silva

Otávio das Chagas (Foto: Lilo Clareto/Acervo Pessoal)

Otávio das Chagas (Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal)

16/02/2015
O pescador sem rio e sem letras
À beira de Belo Monte, uma história pequena numa obra gigante. Que tamanho tem uma vida humana?

18/07/2016
Casa é onde não tem fome
A história da família de ribeirinhos que, depois de expulsa por Belo Monte, nunca consegue chegar

O guarda-chuva preto (ou como uma filha escreve o obituário de um pai?)

 argemiro - Cópia

Meu pai tinha morrido há alguns dias quando uma chuva caiu de repente sobre Ijuí. Foram só alguns minutos em que o céu se convulsionou, escureceu e desabou. A tempestade tornou-se um daqueles raros momentos em que o mundo de fora está igual ao mundo de dentro. Eu era obrigada a fazer uma das inúmeras burocracias as quais somos submetidos quando perdemos alguém. Então peguei o guarda-chuva que estava na porta do carro do meu pai, um Santana prata 2000 que ele havia comprado do meu irmão mais velho. Era um guarda-chuva preto, igual a todos os guarda-chuvas pretos, que são pequenos e ficam grandes depois. E lá estava, um papel impresso com o nome dele: Argemiro Jacob Brum. Seguido pelo endereço e pelo telefone. Todas essas informações cuidadosamente plastificadas e coladas no cabo do guarda-chuva.

O temporal estancou e o sol aqueceu o mundo de fora. No de dentro, por muito tempo ainda será gelo. E eu ainda estava ali, olhando para o guarda-chuva do meu pai. Eu tinha redescoberto o que sempre soube. E o que ele tentou me ensinar. Meu pai acreditava na humanidade. No melhor das pessoas. Só isso poderia explicar essa confiança desmedida que o fez acreditar que alguém encontraria seu guarda-chuva perdido em um canto da cidade e o devolveria.

Eu poderia contar sobre o quanto meu pai acreditava nas pessoas – e o quanto fez por elas – de maneiras bem mais grandiosas. Ele afinal foi um dos fundadores do que hoje é a Universidade de Ijuí (Unijuí) e sonhou que essa universidade fosse toda ela voltada para a comunidade, dando a cada um a possibilidade de ampliar seu mundo e qualificar seu desejo. E, por fim, determinar seu destino. A universidade como um mundo para o mundo, criando e sendo criada ao mesmo tempo, gestando gente capaz de parir possíveis. Mas meu pai acreditava na força reveladora dos pequenos gestos, e me ensinou a acreditar também. E, assim, o guarda-chuva dele me protegeu na tempestade de dentro, aquela causada pela sua morte.

Quando minha família me pediu um obituário, tive de imediato uma queimação no estômago. Antes de meu pai cessar de respirar, eu me despedi dele. No final da tarde de 4 de agosto, logo depois de assistir ao jogo Brasil X África do Sul, ele teve o primeiro AVC. No hospital teve o segundo, e entrou em coma. Morreria menos de 24 horas depois. Assim, quando me despedi dele, talvez ele já não me ouvisse. Mas eu me despedi, e agradeci a ele por ter me dado a palavra. Meu pai me deu a palavra de tantas formas diferentes. E quando ele morreu senti que as palavras silenciaram em mim. Se as palavras sempre haviam sido insuficientes para dar conta da vida, como dariam conta daquela morte?

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Meu pai não me ensinou a fazer obituários. Ao contrário. Ele inspirou em mim o desejo de fazer viviários ferozes. Escrevo para me manter viva – e para manter vivo o que pertence ao outro. Em geral aos tantos matáveis deste mundo. Como jornalista nunca fiz o obituário de ninguém. Que o primeiro seja o do meu pai é um desafio no qual fracasso. Nenhuma palavra daria conta de uma vida, nem a enciclopédia britânica inteira daria conta dos sentidos de alguém. Nem mesmo todos os Tera bytes do Google dariam conta de contar um pai. Assim, eu venho aqui contar do guarda-chuva. E de algumas outras delicadezas.

Luzia é uma delas. Ela foi a primeira professora do meu pai. E aprendi sobre ela porque todo ano meu pai levava uma flor ao seu túmulo. E me contava a história dessa mulher, nascida do amor entre uma escrava e o filho de um estancieiro. Da mãe não restou nome, o pai era Sabino Andrade Neves, sobrenome que encima ruas. A mãe morreu, o pai, deserdado pela ousadia de tal paixão, num tempo em que o corpo das negras era para o estupro, jamais para o amor, tornou-se professor nos interiores poeirentos do Rio Grande. E fez sua filha também professora. E assim essa mulher de pele escura, com esse nome tão profético, arrancou da cegueira das letras gerações de descendentes de italianos do Barreiro, o povoado rural de Ijuí onde meu pai nasceu. Ao colocar a flor no seu túmulo, meu pai lembrava com o gesto que aquela mulher havia nos dado a luz sem crase.

Hoje sou euargemiro3 que levo flores ao túmulo de Luzia. E um dia será minha filha que levará flores ao túmulo de Luzia. Já não há o nome dela na lápide, tomada por parentes de morte mais recente. Mas nós jamais esqueceremos dela, porque o pai nos ensinou a agradecer. Ele foi enterrado alguns metros mais ao fundo do cemitério rural, cemitério de lomba, como todo cemitério que se dá o respeito, e eu gosto de fantasiar que numa hora dessas os dois riem juntos, lembrando do primeiro dia de aula do meu pai. Chamado no mundo da casa, onde havia vivido até então, apenas pelo apelido, meu pai não sabia que seu nome era Argemiro. Luzia teve que chamá-lo várias vezes e, por fim, informar ao guri de pés que não conheciam sapatos quem era ele. Luzia também devolveu o nome ao meu pai.

Penso que com tal estreia na esfera pública meu pai só poderia se tornar professor. Não poderia existir nada mais potente, era como ter a chave que abria a porta do mundo que era uma criança, um adolescente, uma pessoa. E ele foi essa chave para muitos. Para todos que tinham portas, pelo menos, e algumas janelas. Cresci assistindo ao meu pai debruçado sobre redações e trabalhos de seus alunos. Português, história, geografia, problemas brasileiros… Nós partíamos para a cama, ele estava lá. Nós acordávamos, ele estava lá. Sei bem que me tornei escritora porque queria que ele me lesse com tanta atenção como a que dedicava àquelas folhas de papel com caligrafias variadas, cujos autores eu, doida de ciúmes, amaldiçoava.

Meu pai era um humanista. Ainda que para mim o guarda-chuva com nome e endereço seja a prova maior, preciso contar que ele parecia saber tudo. E, por isso, temíamos lhe fazer perguntas. Não porque ele não estivesse aberto para nossos desajeitados questionamentos. O pai não podia ver um ponto de interrogação que já se escancarava para ele. O fato é que qualquer coisa que a gente perguntasse a resposta começava no mínimo pelos gregos. E a gente sempre tinha muita pressa. Mas ele contava tão bem, a gente entendia tão pra sempre, que ficávamos ali, de olhos arregalados, às vezes por horas. Em casa, mas também diante de todos os lugares históricos aos quais ele nos levava no seu primeiro carro, um fusca verde-milico. Antes de descer, eu e meus dois irmãos – Argemiro Luís e José Antônio – tínhamos aula. A melhor aula. Descíamos preparados para ver mais do que paredes velhas e árvores anciãs. E a gente via.

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Era por horas que ele também escutava a história contada por outros. E ele sempre andava atrás dos detalhes esquecidos, das pessoas invisíveis, das coisas pequenas. Como ele tinha olhos de janela, desde menina tenho certeza de que os ouvidos dele ficavam nos olhos. As orelhas do pai, acreditava eu, eram para o uso exclusivo de cotonetes.

Depois de escutar, de pesquisar, de pensar e de pensar e de pensar, o pai escrevia livros, mais de uma dezena deles. Ao mais conhecido, hoje na 30ª edição, ele dedicou largas porções da sua vida. O Desenvolvimento Econômico Brasileiro (Vozes) é o olhar de um humanista que queria que todos pudessem entender o Brasil para poder criar o Brasil. Não apenas os iniciados, mas aqueles que viviam a vida brasileira. E, principalmente, os estudantes. Porque o pai foi – e é – muitas coisas, mas mais do que todas ele é professor. (Eu tinha escrito professor com “P”, mas lembrei de que ele não gostaria de ser convertido em maiúsculas, sempre perplexo com gente que se dava importâncias).

O pai escrevia com enorme generosidade porque escrevia para ensinar. E, assim como ele acreditava nos entregadores de guarda-chuvas perdidos, ele também acreditava que os estudantes eram buscadores de mundos. E isso apesar de todas as nossas ressalvas. A única vez que ele fingia ouvir e não ouvia era quando a gente tentava lhe dizer que a humanidade não era tudo isso. Ele sabia. Melhor que nós, inclusive. Mas ainda assim acreditava. Doava seus direitos autorais para a universidade, escrevia livros para gente que depois não lhe dava o crédito, jamais cobrou por palestras que passava dias preparando, entregava o seu tempo para quem aparecia na porta pedindo ajuda para escrever ou para compreender alguma coisa. Para o pai interessava a honestidade dele, a do outro… paciência.

E como ele era reto. Uma vez escrevi uma carta para o pai em que dizia que ele era mais reto do que a BR 290. Imprecisão jornalística. O pai era muito mais reto. De uma retidão inegociável. Uma vez, ainda na ditadura civil-militar, o comandante do quartel chamou o pai para uma conversa da qual não sabíamos se ele voltaria. Naquela época, o pai era presidente da FIDENE, que ainda não tinha virado universidade, mas era considerada um “antro de subversivos”. O pai disse, não porque era fácil, mas porque era o certo: “Assim como o senhor não permitiria que eu lhe dissesse como conduzir seu quartel, eu também não vou admitir que o senhor diga como eu devo dirigir a FIDENE. Cuide de seus soldados, de alunos e professores cuido eu”. Era o tempo do Médici, e não era qualquer um que tinha esse peito. Mas não era peito, era caráter.

argemiro5Até o fim o pai viveu como na poesia de Fernando Pessoa, renascendo a cada momento para a eterna novidade do mundo. Era um novidadeiro não de fofocas, mas de descobertas. Por fora era todo silêncios e concentração, por dentro era movimento. Curiosava os horizontes todos, queria entender tudo, sempre pronto a ouvir uma história nova. Encomendava os livros bacanas que apareciam tão logo eram lançados, ia ao cinema como quem se lança a um espetáculo grandioso. O último filme que vimos juntos na tela grande foi “A garota dinamarquesa”. Eu temia um pouco, por conta do tema da transexualidade, mas só porque por um instante tinha esquecido quem era meu pai. Quando acabou ele só disse: “é um dos filmes mais bonitos que vi na minha vida”.

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Morreu aos 86 anos sem achar que era velho. A velhice estava sempre uma curva adiante, e como as únicas curvas que ele gostava eram as do Niemeyer… Quando fez 80 e lhe perguntaram num programa de rádio qual era o segredo do seu estado de espírito, o pai saiu-se com essa: “eu perdoo”. Explicou que perdoava tudo, até o dano que ainda nem tinham lhe causado.

Seu outro segredo era público. O amor por Vanyr, minha mãe. Era mesmo o maior amor do mundo. Quando ela tinha 13 anos, viu o pai, todo circunspecto, numa romaria. E decidiu: “Este vai ser meu”. E como foi. Começaram a namorar quando ela tinha 15 anos, depois que ela mandou um “correio elegante” sutil como uma pedrada: “Se meu amor for correspondido, serei a mulher mais feliz do mundo”. E foi. Esta data é conhecida lá em casa como “o dia do tijolaço”.

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Estavam há 65 anos juntos e ainda comemoravam todas as efemérides de seu romance. No aniversário “de conhecimento”, a mãe ganhava rosas. O banco de praça onde namoravam foi transferido para o museu. Enquanto existiu um certo poste, o visitavam periodicamente para rememorações. Andavam de mãos dadas e dormiam de conchinha, vencendo por amor as dores na coluna. Quando a mãe completou 80, no ano passado, o pai escreveu uma carta de amor que contrariava Fernando Pessoa: não era nada ridícula. Era só linda. Fazia o inventário de uma vida e terminava parodiando Camões: “E mais muitos outros anos viveríamos, de mãos dadas, unidos e entrelaçados, nesta humana lida, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida”.

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E, sim, para tão longo amor a mais longa vida é curta. E foi.

Nos últimos anos eu desconfiava que o pai estava virando passarinho. E o céu em que ele mais voava era o do passado. Em vez de contar sobre um pedaço da história do Brasil, ou sobre os gregos, ele contava dos sabiás da sua infância. E dos galos que o acordavam quando era menino, sempre na mesma ordem, comandados pelo dono do terreiro. Era tão bonito o jeito que ele contava, que eu virava criança e pedia pra ele contar mais uma vez. E ele contava. É curioso o que a gente sente saudade. Sinto saudade dos galos. E sinto saudade do jeito como ele passava a geleia no pão. Como tudo o que ele fazia, a geleia tinha dedicação exclusiva. A camada ganhava a mesma espessura em toda a superfície do pão. E, acima desse bloco de perfeitas proporções, para o meu horror perpétuo, ele passava margarina.

O pai gostava também de ouvir o relógio de parede que havia pertencido à sua casa de infância. Parava para escutar as badaladas. E eu percebia que entre ele e o relógio tinha se firmado um pacto de simetrias. Há mais de um século este relógio marca a vidas dos Brum. Quando o encarregado se esquecia de dar corda e os ponteiros imobilizavam-se, ameaçando lançar a família para fora do tempo, meu avô buscava seu relógio de bolso, sempre parado. Tomado por solenidades, entregava-o a um dos filhos mais velhos. Este tio encilhava o cavalo e partia a galope para a cidade. Estaqueava na Praça da República, escoltada de um lado pela igreja evangélica, de outro pela católica. Como só a evangélica possuía um relógio na torre, meu tio dava as costas para sua fé, certo de que seria perdoado, e recuperava as horas. Voltava galopando, com o tempo enfiado nas calças.

Desde que meu pai morreu, o relógio parou. Acho que voltará a andar quando a gente entender como vai viver sem o pai. Por enquanto, ainda estamos todos fixados na tarde de 5 de agosto: o ponteiro das horas no número 5, o dos minutos no 20.

Todo dia, agora, há algo que eu quero perguntar pra ele. Uma crase, um episódio histórico, um causo da família. E o pai não está. Nos primeiros dias depois da morte dele, minha questão era como viver num mundo em que ele não está. Agora, penso que ele não está no mundo de fora, mas está no de dentro. Em mim, em nós. Mas, ainda assim, como é pouco.

Abro então o guarda-chuva e espero o pai me achar.

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